sexta-feira, 7 de julho de 2017

José Carlos Fernandes - 27 ANOS DE ARTES VISUAIS - LUIZ ARTHUR MONTES RIBEIRO



José Carlos Fernandes, amigo de sempre, escreveu o texto de abertura da Exposição
27 ANOS DE ARTES VISUAIS - LUIZ ARTHUR MONTE RIBEIRO.
Grato prezado José Carlos, muito grato pelo carinho e dedicação ao escrever este belíssimo texto.


O trabalho que dá o desejo de mar

Nos seus dias de menino dos Campos Gerais, Luiz Arthur Montes Ribeiro queria ver o mar. Quem sabe, mudar-se para lá. Como o mar estava longe, arrumou um jeito de trazê-lo para perto. Primeiro o fez com as palavras. Depois com desenhos. Pediu ajuda aos pincéis. Por fim, apelou para a imaginação, que passou a acompanhá-lo de uma vez por todas. Criar é seu “discurso do método” – a maneira mais rápida de trazer uma onda rendada para junto do dedão dos pés.

Quase 30 anos passados, percebe a viagem que fez, a gramática que inventou. Mesmo quando pintava pinheiros-do-paraná – dever de casa de todos os que aqui nascem –, via-os “copas de luz” brotando das areias, em ilhas de mel e natureza de superaguis. Deu-se conta que galgou fronteiras internacionais, desafiou regras cósmicas, provou de todas as artes – qual um renascentista com 72 TDAHs à flor da pele. Seu caso, sem remédio em toda a medicina. De tudo, gosta. O que não conhece, deseja. Endoidece. Pudores não falam a língua dos curiosos.

De pecado em pecado, virtude em virtude, acumulou tantos e tamanhos saberes que deixa basbaque o público. Trânsito. Esperanto. Confeitaria. Poesia. O que mais? Perguntem a ele e ao ouvirem a resposta, recolham seus queixos do chão. Depois, tomem prumo. Tudo o que faz, creiam, é faina de um operário padrão para chegar... ao mar. Ama uma farofa no feriado, a vida selvagem de uma excursão. Tanto quanto, um jantar à luz de velas, nos quais dará nomes aos peixes – em francês. Não importa a pompa, a pose ou os decibéis de sua gargalhada: em qualquer caso, é sempre um guri querendo se esbaldar de areia e maresia.

O mar é sua terra sem males. Vê-o de dentro – nas algas e na coreografia das águas, que nunca lhe parecem turvas. De fora – enxerga uma linha de horizonte tingida de laranjas, bêbada de paixão. De dentro, o verso íntimo das ondas. Esse vaivém sem censura lhe permite tudo – usar do sangue, do sêmen, do brinquedinho da loja de R$ 1,99. Cola a humanidade sobre as superfícies e nela faz composições, das literárias às musicais. Chama-as de aquarelas, que tantos batizam de pinturas. E Arthur, para encurtar a prosa, decreta que são textos, sobretudo.

“Tudo começa na palavra”, repete, qual um criador de mundos. Mas antes de um cara dado ao divino gesto de inventar, diga-se, ele é um sujeito contente, desses que cultiva plantas, peixes, aves e águas nos quintais. Bola um elemento a cada feira da semana. Vê que tudo é bom. No último dia, dispensa a folga. Dá muito trabalho trazer o mar para perto, para que banhe a vida real.


José Carlos Fernandes, jornalista.

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